Os contos de fadas e os estereótipos femininos nas histórias infantis

11:10


Olá queridos leitores!


No dia 07 de julho ocorreu a defesa da dissertação intitulada “A representação feminina nos contos infantojuvenis Pós-Modernos: regularidades e dispersões discursivas”, de autoria de Andressa Priori, orientada pela profª. Drª. Nair Gurgel (UNIR).


O blog prestigiou a defesa e posso dizer que fiquei maravilhada por este tema ser debatido na universidade, e a forma como o assunto foi trabalhado na apresentação foi excelente (já quero ler a versão final do texto rsrs)...


É uma interessante reflexão que nos proporciona, pois atualmente muitos pais e mães já não vêem muito sentido nos contos de fadas de antigamente, e lê-los para nossas crianças, hoje, é motivo para, no mínimo, questionarmos a representação e os estereótipos femininos nas histórias infantis, que já não refletem as mudanças vivida pela mulher contemporânea…


A pesquisa foi baseada em 4 títulos pós-modernos (já pude conferir alguns e adorei!): História meio ao contrário, de Ana Maria Machado; A princesa espertalhona, de Babette Cole, Procurando firme, de Ruth Rocha, e Seu rei mandou dizer, de Giselda Laporta Nicolelis, e as autoras do estudo concederam esta entrevista abaixo…


Vamos conferir e aprender mais um pouco sobre o tema? ;)



1. Como surgiu o interesse pelo tema da pesquisa?

Andressa: Sempre gostei muito de literatura infantil, desde menina. Em 2014 comecei a trabalhar no IFRO e conheci uma pessoa chamada Andréia que também ama livros infantis. Ela estava desenvolvendo sua pesquisa de mestrado, escrevendo justamente sobre o tema. Dentre as oficinas desenvolvidas durante a pesquisa, ela me convidou para participar de uma oficina de contação de histórias. Foi muito legal. Até então só havia contado histórias para o meu pequeno João Pedro, mas foi uma experiência maravilhosa. Depois disso fizemos outras atividades de contação e meu encantamento com a literatura infantil só aumentou. Em 2015 iniciei o mestrado. Em uma das aulas com a prof. Cláudia, na época coordenadora do mestrado, enquanto falava de estereótipo feminino, ela levou, dentre outras, algumas imagens das princesas dos clássicos da literatura, foi daí que surgiu a ideia do tema da pesquisa. 

Nair: Os temas de pesquisa em Mestrados são, geralmente, objetos de interesse dos mestrandos que os orientadores acatam de acordo com sua área de interesse. No entanto, no caso da Andressa, houve um caminho de muitas reflexões que nos levaram a mudar o foco inicial da pesquisa. Apenas em 2016 é que decidimos por pesquisar questões com as quais estávamos bastante envolvidas, ou seja, a Literatura Infantil e a Pluralidade Cultural.



Trecho de "A princesa Sabichona" (Babette Cole)




2. Como se deu a escolha dos 4 livros infantis que são objeto da pesquisa?


Andressa: O nosso objeto de pesquisa foi a representação feminina nos contos pós-modernos. Ao esboçar o projeto tinha em mente algumas obras das quais já havia lido, dentre elas "História meio ao contrário" e "A princesa Espertalhona". Posteriormente a profª. Nair me emprestou um tanto de obras para escolhermos o nosso “corpus”. Esses livros ela me entregou em uma de suas aulas de Pluralidade Cultural e aproveitou para encerrar sua aula contando-nos a história "Procurando Firme" de Ruth Rocha. Ao final da leitura ela disse: "- Este já está escolhido!". Foi uma excelente escolha. Eu ainda não conhecia a obra.
"Seu rei mandou dizer" foi outro livro que também não conhecia. Assim que fiz a leitura dele achei fantástico e vinha completamente ao encontro das princesas que pretendíamos analisar. De início a profª. Nair havia pedido 5 obras para compor o corpus, por isso também fazia parte o livro "A bolsa Amarela" de Lygia Bojunga. Porém, decidimos retirá-lo, pois apesar de ser uma obra lindíssima, não pertence a gênero conto de fadas.


Nair: Traçado o objeto de estudo a partir de uma problemática, foi fácil escolher as obras. Difícil foi realizar o recorte, já que havia muitas possibilidades dentro da Literatura Infantil. Então, decidimos que trabalharíamos com textos de autoras, já que havia a questão de estereótipo de gênero a ser resolvida dentro dos objetivos propostos. Escolhemos, então, 3 escritoras brasileiras e uma estrangeira para comparar os discursos a respeito do tema.




Trecho de "A princesa Sabichona" (Babette Cole)



3. Hoje ainda temos muitos livros de contos de "princesas" baseados em histórias antigas que mostram uma visão estereotipada da mulher, que atualmente não corresponde tanto ao estilo de vida da mulher moderna... Vocês veem perspectiva para uma mudança deste cenário, a da realidade vivida e aquela refletida nas obras infantis?


Andressa: Penso que as mudanças já estão acontecendo. A questão é que são obras recentes e ainda pouco conhecidas pela maioria das pessoas. Há muitas obras infantis ou infantojuvenis que dialogam bastante com a realidade atual, que falam do empoderamento da mulher, que desconstroem estereótipos tanto feminino quanto masculino.


Nair: Sim, há espaço para reflexões a respeito de mudanças necessárias na sociedade. Os contos tradicionais continuam tendo seu valor e reconhecimento literário, porém, urge que coloquemos as crianças em contato com a realidade. Não para retirar-lhes o direito de sonhar, mas para que não se omita, sob a ótica do fantástico e do maravilhoso, a subjugação e a passividade feminina, tão expostas nos contos tradicionais.




Trecho de "História meio ao contrário" (Ana Maria Machado)




4. O que vocês recomendam ou que reflexão sugerem aos pais que não se identificam mais em ler os contos de princesas tradicionais para os seus filhos?


Andressa: Acredito muito na importância dos contos de fadas tradicionais. Alguns clássicos com séculos de existência até hoje encantam muitas crianças e adultos. Com certeza, há muito para se aproveitar dessas histórias. Bruno Bettelheim escreveu "A psicanálise dos contos de fadas" e, nesta obra, ele nos revela um olhar muito interessante acerca da importância dessas histórias para o ser humano, em especial, às crianças. Apresentar aos nossos pequenos essas novas versões e releituras também é muito divertido e proveitoso. Penso que, primeiramente, devemos priorizar o gosto pela leitura. Mostrar às nossas crianças o mundo mágico dos livros, fazer com que eles leiam por gosto. Junto a isso trabalhamos conceitos e valores dos quais entendemos ser o melhor para os nossos filhos.


Nair: A leitura é também um ato de aproximação e carinho. Penso que, ao ler contos de fadas tradicionais, as próprias crianças farão questionamentos a respeito. Se não o fizerem, é bom que se estenda a conversa, faça perguntas, propicie reflexões após a leitura. Para nós, formadores de leitores, há que se ter um compromisso com o conhecimento prévio da criança e seu crescimento enquanto leitor. A leitura tem essa função – elevar o nível do senso crítico. Portanto, se não nos interessa o antigo, que busquemos o atual ou, ainda, leiamos os antigos para propiciar esses momentos de discussão saudável.





Trecho de "História meio ao contrário" (Ana Maria Machado)



5. Como trabalhar melhor esta desconstrução de estereótipos (príncipes e princesas) com as crianças durante a leitura?


Andressa: Segundo Bettelheim (1980, p. 27) "Explicar para uma criança porque um conto de fadas é tão cativante para ela, destrói, acima de tudo, o encantamento da história que depende, em grau considerável, de a criança não saber absolutamente por que está maravilhada". Talvez seja interessante aplicar isso aos contos atuais também. Ler e deixar a criança assimilar por si, pensar, refletir um pouco, associar com outras situações e construções. Quando ela vier questionar ou comentar a respeito, aí sim, podemos contribuir, falar também o nosso ponto de vista. Bem, não sou psicóloga... mas é assim que geralmente faço. Não sei se esta é a melhor dica.


Nair: As crianças deste mundo contemporâneo, pós-moderno, líquido, etc... são muito mais perspicazes que as da minha geração, por exemplo. Depois, com as novas tecnologias, os tablets, celulares, TV, computadores e tal já estão atualizados em relação a esta temática. É só ver as mulheres que fizeram sucesso com o nosso público infantojuvenil, mostrando-se diferentes, reinventadas e propondo-nos uma série de reflexões importantes.





As mudanças e/ou semelhanças com os estereótipos encontradas nas obras já existentes na nossa sociedade e atestam mais inovações/um novo olhar do que repetições na forma de representação do masculino e feminino questionando o que é belo ou feio, a mulher frágil ou forte, o príncipe encantado ou desencantado e dessa maneira, despertando o senso crítico dos leitores. Assim, a literatura propicia uma nova ordenação das experiências existenciais da criança.





Trecho de "Procurando Firme" (Ruth Rocha)



Sugestões de leituras para as mães e pais que quiserem entender melhor essa mudança:


BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. Tradução de Marcus Vinicius Mazzari. São Paulo: Summus, 1984.
CALADO, Eliana. O encantamento da bruxa: o mal nos contos de fadas. João Pessoa: Ideia, 2005.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura: arte, conhecimento e vida. São Paulo: Petrópolis, 2000.
ZILBEMAN, Regina. A Literatura Infantil Brasileira: como e por que ler. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
KHÉDE, Sônia Salomão. Personagens da Literatura Infanto-Juvenil. São Paulo: Editora Ática, 1990.
REZENDE, Nilza. Por acaso. In. RUFFATO, Luiz (org.). 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2004.


O livro “Once Upon a Time: da literatura para a série de TV” é resultado da pesquisa de Pós-doutorado de Sandra Trabucco Valenzuela, em 2016. O livro faz um rastreamento da transposição de personagens clássicas dos contos de fada para a primeira temporada da série televisiva Once Upon a Time, produzida pela rede norte-americana ABC, ligada à Disney. Embora a autora faça reflexões a partir de autores que pensam a pós-modernidade, discuta a questão de gênero e utilize a intertextualidade em sua obra, não sentimos o aprofundamento necessário a que nos propusemos neste trabalho, principalmente no que se refere aos estereótipos femininos e à análise discursiva.



Trecho de "Procurando Firme" (Ruth Rocha)



Trecho de "Seu Rei mandou dizer..." (Giselda Laporta Nicolelis)



Trecho de "Seu Rei mandou dizer..." (Giselda Laporta Nicolelis)




UAU!!! Quanta informação boa, não é mesmo?! Fiquei maravilhada com a entrevista! Parabéns pelo trabalho!
Agradeço imensamente à Andressa e Nair por esta entrevista, que, esperamos, irá contribuir para auxiliar muitas famílias e educadores na reflexão sobre esta temática e, quem sabe, inspirá-los a terem novas leituras e novos olhares sobre as histórias de contos de fadas e suas releituras em versões pós-modernas…
Para aqueles que ficaram curiosos sobre mais leituras de contos de fadas pós-modernos (ou releituras dos tradicionais), as autoras prepararam uma lista incrível de sugestões de leitura, que você pode conferir neste link. A lista está legal demais!!!
Certamente esta dissertação, sendo publicada, suscitará outros questionamentos e outras pesquisas, e torcemos para que venham mais discussões a respeito, e a sociedade, claro, só tem a crescer com trabalhos como estes :D
Espero que gostem, se tiverem qualquer dúvida, podem escrever para nosso blog, ou entrar em contato pelas redes sociais… Inclusive, dando sugestões de temas para nossas próximas matérias, ok?!
Um abraço e até o próximo post ;)
Jaqueline

Fotos das ilustrações cedidas pelas autoras da pesquisa (extraídas dos livros originais)

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